sábado, 28 de dezembro de 2013

REFERÊNCIA: Jon Oliva


John Nicholas Oliva
22/07/1970
Bronx, NY (EUA)





Jon Oliva, líder do eterno SAVATAGE, surpreendeu em 2013 ao lançar um disco autenticamente SOLO.


Explica-se: desde o fim do Savatage, Jon já mostrava toda sua veia criativa no Jon Oliva's Pain, banda da qual era obviamente líder e mentor. E a despeito da escassez de lançamentos, também levava a cabo o bem sucedido Trans-Siberian Orchestra.


Ainda assim, lançou o excelente "Raise The Curtain" sob o nome JON OLIVA.


Infelizmente, não há de se pensar que Jon sinta menos "dor" ao deixar o "pain" de lado.







Fato é que 3 fatos há de serem relevados na vida deste mestre do Heavy Metal contemporâneo. O primeiro é a insuperável perda de seu irmão Criss Oliva. O Savatage tinha um prodígio nas guitarras, criativamente se superava ao lado do produtor Paul O'Neill (que seguia com a banda desde o clássico "Hall Of The Mountain King", de 1987) e o terrível acidente de Criss representou uma espécie de fim para o sonho dos irmãos.


Realmente, concorda-se que a tragédia não cessou as atividades do Savatage, que ainda teve tempo de amadurecer ainda mais, contar com talentos do porte de Al Pitrelli, Alex Skolnick e Chris Caffery, e lançar épicos maravilhosos e diversificados como "Dead Winter Dead" (1995), "Wake Of Magellan" (1997) e "Poets And Madman" (2001).






O segundo fato sobre Jon foi a ascensão do projeto TRANS-SIBERIAN ORCHESTRA. Utilizando até mesmo composições do próprio Savatage, o TSO escancarou uma veia HIPÓCRITA dos norte-americanos e do público em geral: a música heavy, se numa embalagem mais amena, pode fazer todo o sucesso que via de regra lhe é negado no mainstream. Eis o lance do TSO: a proposta criativa que SEMPRE foi do Savatage, aplicada a músicas essencialmente natalinas (à exceção do essencial "Beethoven's Last Night"), e com uma produção grandiloquente a la Broadway, alcançava sucesso e números de venda inimagináveis para o até então pequeno e segmentado grupo americano.






Por fim, dando contrastantes entrevistas, que ora acenavam com o retorno do Savatage (que, segundo Oliva, jamais "terminou" de fato), ora alegando que seria loucura voltar com a banda, se seu projeto paralelo e de semelhante proposta rende tão mais, eis que JON sempre teve para si que quem quisesse ouvir SAVATAGE, que procurasse ou o TSO (talvez pela faceta mais épica e mirabolante) ou sua banda solo (JOP, trazendo o lado mais rústico e heavy de sua carreira, sem perder em sofisticação).



Destaque-se ainda que Jon até "saiu da toca" na última década, sendo que suas aparições especiais em álbuns e projetos, até então raras, passaram a ser mais comuns, a exemplo do Circle II Circle (ajudando ao ex-vocalista do Savatage, já citado, Zachary Stevens), Seven Witches (do também ex-Savatage Jack Frost), Chris Caffery, Avantasia, Kamelot, Midnight (falecido vocalista do Crimson Glory) e até da metal opera brasileira Soulspell.



O terceiro dos fatos, porém, deu-se após o ótimo álbum "Festival" (2010) do Jon Oliva's Pain. Seu guitarrista e parceiro Matt LaPorte (que já havia contribuído também com o Circle II Circle de Zak Stevens) faleceu em 2011. Cruel destino: Jon teve que REVIVER o pesadelo de perder um grande amigo, companheiro e membro criativo de sua banda! Mais uma vez, a exemplo do que ocorrera com seu irmão Criss, num dos auges do Savatage.







Tudo isso para mostrar o contexto em que surge "Raise The Curtain". Um disco de aura até positiva, ao contrário do que se poderia pensar (e que ainda traz algo de antigas composições de Criss, a exemplo do que o JOP já fazia). O título manda levantar as cortinas (!), como que dizendo que muito há por vir. O clima, as composições mostram um heavy bombástico, como num verdadeiro show. As músicas são sensacionais, um desfile de hits, retomando facetas do próprio Savatage (de cuja sonoridade Jon jamais se distanciou) e do melhor de sua carreira solo desde "Tage Mahal" (2004).



A parte mais densa do álbum fica por conta das letras, especialidade de Oliva, ao tratar de temas cortantes sobre suas percepções acerca da vida, do tempo, das trevas e do ser. Não é novidade ou privilégio deste lançamento em especial, pois esta sempre foi uma característica lírica marcante de Jon. Seja nos temas mais despojados ou nos mais sinistros do Savatage ou do JOP, Jon sempre trouxe consigo uma angústia muito grande ao longo de letras obscuras e conceitos introspectivos.



Aproveitamos o gancho para tratar deste gênio que é JON OLIVA. Mas sem deixar de destacar este que foi um dos grandes lançamentos de 2013:



Jon Oliva - "Raise The Curtain" (2013)








http://www.savatage.com/
http://www.trans-siberian.com/
http://www.jonoliva.net/
http://en.wikipedia.org/wiki/Jon_Oliva






REFERÊNCIA: Bill Laswell


Bill Laswell
12/02/1955
Illinois (EUA)





Nas palavras do insano baixista e produtor, de tão primorosos trabalhos:


"I think everything’s experimental whether you like it or not. I think that people who do generic pop are experimenting with clichés"






quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

PLAY: Elvis Costello & The Roots





Surpreende-me a capacidade de certos artistas de criarem climas específicos ao longo de suas composições ou, ainda, por todo um disco. Alguns artistas tornam aquilo sua marca registrada e podem, com menor ou maior diversidade, utilizarem-se dessa essência mágica por tempos.



Antes de falar do disco aqui em pauta, um dos melhores deste ano de 2013, farei a conexão com outra vitoriosa e épica parceria, até recente. Quando o mestre Lou Reed chamou o gigante Metallica para acompanhá-lo em "Lulu" (2011), aquilo gerou surpresa. Ficava o questionamento acerca de como casariam estilos tão marcantes e diversos de ambas as carreiras.


O resultado foi notável. A voz marcante de Reed, ao lado de suas filosóficas e "sofridas" declamações, se juntarem de forma magistral com as bases pesadas e típicas de Hetfield e cia. O trabalho, duplo, conceitual, denso, cumpria o que prometia - embora, antes de se ouvir o álbum, ficava difícil de se descrever como se pensava que aquilo soaria. Só se sabe que soou como deveria soar - e foi com excelência!



Não é diferente do encontro entre ELVIS COSTELLO e o famoso coletivo hip hop THE ROOTS.



Como trazer as bases soltas e cheias de groove do ROOTS para o universo de COSTELLO, que baila entre o rock clássico, o blues e forte apelo até pop de suas tão agradáveis composições? A incógnita era excitante, ao mesmo tempo que promessa quase certa de um trabalho histórico.



E, mais uma vez, o encontro cumpre o que prometia! Verdade que não houve muito tempo para se idealizar sobre o assunto. O álbum da parceria saiu de modo um tanto abrupto, já no 2º semestre de 2013, e embora houvesse notícias da produção do disco (e da parceria que já vinha desde os programas de Jimmy Fallon), o produto final, ali, à disposição, pegou muitos de surpresa.




Mas que agradabilíssima surpresa!!! E que disco belo, bem construído, de composições tão cativantes! Essencial!




Mais uma vez a prova de que a união de bandas/artistas únicos, de fusão improvável, gera uma obra-prima final bombástica - em coesão, em beleza, em grande canções!



A lamentar apenas a ausência de Black Thought, o vocalista que poderia ter improvisado e tornado a união ainda mais forte e característica! Quem sabe numa próxima etapa... quem sabe...



Recomenda-se a linda edição deluxe do álbum, num digipack muito bem feito pela Blue Note, com encarte completo e 3 faixas-bônus certeiras!




Elvis Costello feat. The Roots - "Wise Up Ghost" (2013)









http://www.elviscostello.com/
http://theroots.com/





FROM THE HEART:
Philip Glass - "North Star" (1977)






Disco de uma vida!



Philip Glass - North Star (1977)




http://www.philipglass.com/
http://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Glass





quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

REFERÊNCIA: Matana Roberts


Matana Roberts
Chicago (EUA)





2013 fica marcado como o ano de grandes lançamentos... de grandes e criativas MULHERES!


Rapidamente, penso na já citada musa Janelle Monáe. Poderia ainda pensar no espetacular "Matangi" da dinâmica cantora M.I.A.. Quem sabe ainda em Karin Dreijer (Fever Ray) à frente do ótimo The Knife. A lista é longa, dentre nomes consagrados a revelações.



E tratarei aqui de quem, talvez a exemplo de Janelle, já pode se encontrar no limiar entre a "revelação", até por ser ainda uma jovem e de seleta discografia... mas também já num alto posto de referência. Principalmente no campo do free jazz.




MATANA ROBERTS sequer acredita que faz exatamente jazz. E classificar essa mente brilhante realmente seria tarefa inglória, além de não ser nossa intenção aqui. Fiquemos com suas próprias palavras, quando disse:

"Tenho raízes no jazz, entendo de onde vem a minha música. Mas, para mim, ela não é jazz. Algumas pessoas empurram esse rótulo para cima de mim, mas acho que fica a cargo do ouvinte decidir como vai chamar aquilo que faço. Na verdade, sou uma experimentalista que de vez em quando usa referências do jazz no trabalho. Não quero fazer nada mais grandioso do que já foi feito. Tudo o que quero é criar um trabalho honesto."




Mas vamos à obra propriamente dita. Se MATANA já é uma referência, em muito se deve ao derradeiro trabalho nestes dois primeiros capítulos (ela promete mais!) da obra-prima COIN COIN.



Inicialmente, em sua primeira etapa, "Coin Coin Chapter One: Gens De Couleur Libres" (2011), conhecemos a história de Marie Thérèse Metoyer, escrava do século XIX, ancestral da própria artista. A partir dessa sua correlação pessoal, e de muita pesquisa, MATANA desconstrói toda uma história que vai da escravidão e libertação dos negros, por todo o histórico de opressão de sua raça, até os dias de hoje.



Relata a própria que:

"My grandfather and his brother were orphans, and they were raised by a collective of different families who lived in that area that were actually blood-related to her. She was the first strong female archetype, outside of my mother and my grandmother, that I was exposed to in a storytelling format – I learned about her before I learned about Harriet Tubman. And my grandfather used to call me Coin Coin for fun."




Em recente visita ao Brasil, ainda contou que:



"Tenho um grande interesse nas questões da escravidão ao longo do mundo e dos direitos humanos, e acho toda essa história das revoltas dos escravos no Brasil profundamente inspiradora para o meu trabalho."







Em 2013, ainda em alta com seu novo e surpreendente passo "Coin Coin Chapter Two: The Mississippi Moonchile" (2013), MATANA se estabelece de vez como referência do free jazz mundial. Álbum por vezes tão ou mais intenso que a primeira jornada de 'Coin Coin', ganhou em dramaticidade e performance com a introdução dos vocais de Jeremiah Abiah. Assim como também agregou em ares performático a suas apresentações.



Não é cedo para afirmar que MATANA ROBERTS é uma das musas do jazz e da música mundial contemporânea!




Matana Roberts - "Coin Coin Chapter Two: The Mississippi Moonchile" (2013)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

PLAY: Run The Jewels





Feliz Natal ácido com El-P e Killer Mike, "A Christmas Fucking Miracle":









segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

SPECIAL: Mutation, Mutoid Man,
Corrections House





Na verdade, aproveitarei a deixa para falar de alguns SUPERGRUPOS que lançaram grandes discos neste ano de 2013.



O primeiro, logo no título do post, não poderia deixar de ser o MUTATION. Também não por coincidência, o selo de lançamento deste supergrupo é a Ipecac Records, do mestre Mike Patton.



Mas o melhor vem no line up, que quando anunciado prometia contornos épicos. E, de fato, aós o lançamento do disco, percebemos que cumpria fielmente o que prometia! Trata-se nada menos que a reunião do insano Shane Embrury (NAPALM DEATH, Lock Up) com David "Ginger" Walls (The WILDHEARTS), formando a cada faixa um time maravilhoso que, dentre outros, contou com o mítico Mark E. Smith (Líder do THE FALL), além de Jon Poole (CARDIACS), Chris Catalyst (The Sisters Of Mercy) e do mestre do noise japonês MERZBOW.


Ouça sem medo e desconfie das listas de "melhores do ano" que não trouxerem o petardo "Error 500" relacionado - por ter sido lançado no fim do ano, acabou por chamar menos atenção do que realmente merecia. E fiquemos atentos a eventuais novos passos desta banda de deixar os olhos marejados!



Eis, para apreciação, o ótimo clipe de "Gruntwhore":









Outra maravilha foi a porrada lançada pelo MUTOID MAN, que reúne Stephen Brodsky do CAVE IN com o baterista Ben Koller do CONVERGE, e também ALL PIGS MUST DIE. Sim, as bandas envolvidas dão ideia do som seguido, mas não totalmente. Apenas ouvindo a peça para saber que os membros acertaram a mão nessa, fazendo um trabalho por um lado original, de personalidade, e, por outro, à altura de suas bandas de origem!








Por fim, membros de bandas arrastadas e obscuras do porte dos clássicos EYEHATEGOD (Mike IX Williams, vocais) e - do referencial - NEUROSIS (Scott Kelly, guitarras), ao lado ainda de Bruce Lamont (voz e sax do essencial YAKUZA) e do programador Sanford Parker (NACHTMYSTIUM, MINSK), nos levam numa viagem alucinante ao longo do debut "Last City Zero".


Outro provável disco do ano, não só pelo time, mas pelas viajantes, soturnas e pesadas composições, que com certeza o prenderão em agonia no decorrer de toda esta - OBRIGATÓRIA! - audição.



Segue com o perturbador clipe de "Hoax The System", faixa de um single pré-álbum, deste mesmo ano:








Seu ano na busca de novas e ousadas bandas certamente não terá sido completo sem esses 3 grandes lançamentos:




Mutation - "Error 500" (2013)

Mutoid Man - "Hellium Head" (2013)

Corrections House - "Last City Zero" (2013)




https://www.facebook.com/MutationProject
https://www.facebook.com/mutoidman
https://www.facebook.com/CorrectionsHouse




quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

FROM THE HEART: Blind Guardian - "Nightfall In Middle-Earth" (1998)





Toda uma pompa sonora, espécie de marca registrada dos alemães do BLIND GUARDIAN, pode consistir tanto no maior trunfo, como ao mesmo tempo no ponto fraco deste grande grupo metálico.


Explica-se: foi o Blind Guardian que, por meio de bombásticas e até complexas produções e arranjos de suas composições, teve êxito em juntar uma enorme e fiel legião de fãs no âmbito da música pesada e melódica. Ao mesmo tempo, criou-se uma imagem (ora justa, ora apenas preconceituosa), que afasta muitos do som da banda, por tê-la como um grande exagero daquilo que se definiu como um sem graça - e já batido hoje em dia - "power metal melódico".



A meu ver, e como aqui falamos de diversos estilos sem maiores preconceitos, há de se fazer JUSTIÇA ao dividir o histórico do grupo em 3 partes mais ou menos definidas. A fase que vai de seu debut "Batallions Of Fear" (e veja o ano: 1988!), até os festejados "Tales From The Twilight World" (1990) e "Somewhere Far Beyond" (1992), mostram um BG calcado essencialmente num heavy tradicional, já puxado para o lado épico do que se chamou de "power metal". Para um som personalizado, em muito ajudou a característica voz rouca e rasgada do excelente Hansi Kürsch.



Após, o que chamaremos da grande trinca vitoriosa dos alemães, com três clássicos absolutos do estilo, consistindo no auge CRIATIVO do grupo: "Imaginations From The Other Side" (1995), "Nightfall In Middle-Earth" (1998) e "A Night At The Opera" (2002).



Por fim, após mudança na formação (cuja estabilidade era um dos pontos fortes da banda), e certa estagnação produtiva, apenas 2 lançamentos nos últimos 10 anos - e que não vieram mostrar nada de novo. Os sets ainda se baseiam nos clássicos da relativamente recente fase áurea, e as novas composições são perdidas, soam datadas e sem o glamour de outrora.



Logo, feitas as justas críticas, mas também os justos reconhecimentos, o desafio seguinte é escolher um disco para chamar "do coração". Para quem viveu a época, e soube observar as inovações e contribuições do BG ao estilo, fica muito difícil apontar um álbum mais importante. Sem dúvida "Imaginations..." (1996) é dos preferidos, pois reúne ainda um lado mais cru e coeso ao lado épico, não saturando tanto nas melodias.



Mas é "Nightfall In Middle-Earth", o meio-termo até o surreal disco seguinte, que leva nosso título. Abre com a até hoje destaque nas apresentações do grupo, "Into The Storm", e a partir desta faixas todas as demais vão ganhando em refinamento, em memoráveis jogos vocais e coros, cativando mais e mais até a deliciosa e pouco lembrada "A Dark Passage", a seu final.




Claro que vai de cada um saber o quão marcante (ou não) foi o som do BG para si e (certamente) para o Heavy Metal. Mas cabe saber se render ao som do grupo quando fizeram por merecer, assim como cabem as críticas após certa acomodação num heavy já sem atrativos há algum tempo...



Blind Guardian - Nightfall In Middle-Earth (1998)





http://www.blind-guardian.com/

http://en.wikipedia.org/wiki/Blind_Guardian





SPECIAL: Run The Jewels





2013 fica marcado por mais uma grande colaboração de dois representantes do que podemos chamar de um atual vanguarda do hip hop. Agressivo, autêntico e visceral, El-P & Killer Mike atacaram novamente, assumindo o nome de RUN THE JEWELS.


Certamente um dos destaques do ano, que novamente trouxe lançamentos de contornos épicos, a exemplo do forte 2012.


O mais interessante é pensar que dois artistas tão talentosos e criativos podem ainda render muito nos próximos tempos, e a promessa é de novos clássicos - lírica e musicalmente - a exemplo dos já citados "Cancer For Cure" e "R.A.P. Album", que já trato como referências do prolífico estilo.


Run The Jewels - Run The Jewels (2013)








segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

REFERÊNCIA: Herbie Hancock


Herbert Jeffrey Hancock
12/04/1940
Chicago, Illinois (EUA)





"As pessoas têm mania de endeusar os tempos antigos. Sempre ouço a mesma história sobre como eram bons os clubes enfumaçados e as jam sessions que varavam madrugadas. Isso é romântico, mas é mentira. Eram tempos duros para os músicos. As coisas melhoraram bastante. Em termos musicais, o jazz continua tão inovador quanto antes. Você conhece o músico Robert Glasper? Ele é um músico jovem, com pouco menos de 30 anos. É um dos jovens da nova geração que fazem um jazz altamente inovador. Flying Lotus é outro exemplo de jovem que faz um jazz de primeira linha. Gente que não está associada ao jazz, cuja música é difícil de identificar ou rotular, mas que nitidamente tem um espírito de jazz e uma profunda influência do jazz. Ele usa música de várias fontes, mas a mistura que faz é tão improvisada e inventiva que só pode ser jazz."



"A influência do jazz é sua vitalidade e inventividade. O jazz mudou e tem um papel diferente. Muitos músicos de jazz hoje são professores em faculdades de música, ou em colégios, não são mais músicos profissionais. Ao mesmo tempo, o jazz se tornou uma música internacional, não apenas americana. O jazz não morreu, não foi superado e continua tão inventivo quanto antes. O jazz apenas voltou a ser underground, não faz mais parte da cena musical pop."



"As pessoas não querem mais saber da música em si, mas sim de quem faz a música. O público está mais interessado nas celebridades e em como determinado artista é famoso do que na música. Mudou a maneira como o público se relaciona com a música. Ele não tem mais uma ligação transcendental com a música e sua qualidade. Quer apenas o glamour. O jazz não quer fazer parte disso. Sabe por quê? Não se trata de humildade, nem de arrogância, de uma postura “não queremos ser famosos, somos underground”. Nada disso. O jazz é sobre a alma humana, não sobre a aparência. O jazz tem valores, ensina a viver o momento, trabalhar em conjunto e, especialmente, a respeitar o próximo. Quando músicos se reúnem para tocar juntos, é preciso respeitar e entender o que o outro faz. O jazz em particular é uma linguagem internacional que representa a liberdade, por causa de suas raízes na escravidão. O jazz faz as pessoas se sentir bem em relação a si mesmas."



Herbie Hancock



HAMMERS OF MISFORTUNE





Gosto muito das possibilidades do, até certo ponto nebuloso, estilo conhecido como stoner. Estilo que muitas vezes puxa para o doom, se mais sombrio e arrastado... mas cuja contundência, ou "crueza" do peso pode torná-lo sludge, e com algumas viagens mais para o blues, o psicodélico, ou com estruturas pouco usuais, pode mesmo flertar com o progressivo.



Fato é que cada subestilo citado, nessas tênues fronteiras que os separam, revelou nomes e discos históricos para o âmbito da música pesada. Já tratei aqui, por exemplo, da mirabolante proposta do Cathedral, ao longo de uma vitoriosa e exímia carreira. Ou o que dizer do insano e referencial MELVINS? Ou de trabalhos do mais visceral underground metálico, desde o clássico "Blues For The Red Sun" do KYUSS (em sonoridade hoje retomada por bandas como o GHOST, por exemplo), até bandas do porte de Eyehategod, Crowbar, Trouble ou Candlemass. Em última análise, como é óbvio, bateremos lá onde tudo começou, o BLACK SABBATH.




O estilo (ou estiloS), logo, é rico, variado e de possibilidades diversas. Sim, corre-se o risco, como de fato OCORRE, de se tornar saturado pelo excesso de bandas recorrendo a fórmulas batidas, soando muito parecidas, tirando o charme potencial e criativo do segmento. Mas não é disso que trataremos aqui.




Falaremos, finalmente, de uma das bandas que mais vêm acertando a mão, ultrapassando os limites aqui tratados, e se tornando uma jovem e autêntica referência INOVADORA para o Heavy Metal de um modo geral: o excelente HAMMERS OF MISFORTUNE.




Toda a introdução se deve, em especial, ao bom início de carreira desses norte-americanos. Os recomendáveis "The August Engine" (2003) e "The Locust Years" (2006), ou mesmo o debut "The Bastard" (2001), já davam o cartão de visitas dos americanos: um heavy potente, 'gordo', numa linha que já flertava muito com o progressivo.



Para este blog, no entanto, foi no ousado disco duplo "Fields / Church of Broken Glass" (2008) que o grupo atingiu certo nível de excelência. Mais uma vez com a aura eminentemente PROGRESSIVA em destaque, sem deixar de lado dois elementos essenciais: de um lado, aquela "gordura", aquele PESO típicos do estilo; do outro, as MELODIAS em primeiro plano, resultando em composições bombásticas.





Não foi surpresa, portanto, a evolução da banda para o magnífico "17th Street" (2011), onde se mostraram mais maduros, mais soltos (jogos vocais até com uma interessante proposta teatral),  finalmente com uma produção mais acertada, e o melhor, que sempre aqui destacamos: a necessidade de pensar um passo à frente, de serem ORIGINAIS!





Fica proposto, entretanto, novo desafio para estes americanos: superar "17th Street". Fugir de fórmulas e comodismos, e se arriscar cada vez mais com o talento e a veia inovadora sempre presentes na hora de compor, para que possam ocupar a linha de frente do heavy moderno e conquistar o destaque que ainda lhes é (injustamente) negado!




http://hammersofmisfortune.com/

http://en.wikipedia.org/wiki/Hammers_of_Misfortune





domingo, 15 de dezembro de 2013

REFERÊNCIA: Janelle Monáe


Janelle Monáe Robinson
01/12/1985
Kansas (EUA)





Não acredito ser precipitado apontar, desde já, e ainda que apenas em seu 3º álbum oficial (a descontar o já maravilhoso e raríssimo EP de estréia, "The Audition"), JANELLE MONÁE como não apenas musa, mas autêntica referência deste blog.


Afinal de contas, a moça traz em seu som e estilo tudo aquilo que é aqui defendido. Sim, uma dinâmica muito própria e original, aliada a um grande talento, que parece ser nato. E, como mostra em seu 3º álbum, a sagacidade que parece impedi-la de repousar confortavelmente em sua própria fórmula ou estilo.

Eis uma aparente salada musical, que aponta para várias vertentes, sendo ora agressiva, ora suave, e ainda trazendo de forma mais ou menos óbvia desde o soul/r&b, funk e hip hop, passando pelo pop rock e eletrônico... mas que com Janelle, soa coeso e instigante.


Especulando por alto, penso no groove refinado de uma Lauryn Hill, na classe de Norah Jones, ou na insanidade de uma M.I.A, ou ainda na originalidade de uma das referências imediatas de Janelle, Erykah Badu. MONÁE parece ter se consolidado com louvor já acima de nomes tão fortes e anteriores a ela.


Autêntica, originalíssima, perspicaz, sem dúvida está provado que a guria é. Mas volto a um ponto crucial: o senso de não acomodação! Este ano de 2013 fica marcado pelo lançamento do divino "Electric Lady", que responde à pergunta lançada em 2010, quando da explosão da pequena obra-prima "The ArchAndroid". Isto é: para onde essa garota irá agora?


Um disco tão dinâmico e variado poderia apontar para vários sentidos em seu sucessor. O visual retrô poderia até fazer pensar num pop/soul mais clássico, talvez com alguns arroubos típicos da cantora, mas que dificilmente viria a superar seu disco de 2010 - e, talvez, a moça passasse a carreira à sombra daquele possível clássico.


Mas, NÃO. Ao lado de nomes do porte de Prince e da própria Erykah Badu, JANELLE deu o recado: não veio ao mundo para se acomodar, para se contentar com o trivial, o usual. Janelle choca com suas ideias, com seus movimentos, com sua arte! E é com este pedaço sofisticado de uma mente tão ativa que fomos presenteados neste ano que se encerra...



Absoluta!


Janelle Monáe - Electric Lady (2013)







http://www.jmonae.com/

http://en.wikipedia.org/wiki/Janelle_Mon%C3%A1e